Como as empresas de stablecoin ganham dinheiro
Como as empresas de stablecoin ganham dinheiro se a moeda vale sempre um dólar e não cobra nada de quem usa? A resposta é a mesma de um banco antigo: elas ficam com o dinheiro que você entregou e recebem juros sobre ele. Quando você compra 1.000 USDT, a Tether recebe US$ 1.000, compra títulos do Tesouro americano com esse valor e embolsa o rendimento. Você fica com um token que não rende nada. Este guia mostra a conta com os números publicados por Tether e Circle em 2025 e 2026, o que as reservas revelam sobre o risco e o que isso muda para quem guarda parte do patrimônio em stablecoin.
Em resumo
- A receita é quase toda juros: no caso da Circle, US$ 2,64 bilhões dos US$ 2,75 bilhões de 2025 vieram do rendimento das reservas do USDC.
- A Tether lucrou US$ 1,04 bilhão no primeiro trimestre de 2026 e cerca de US$ 1,5 bilhão no segundo, com cerca de US$ 141 bilhões em títulos do Tesouro americano.
- O modelo depende de juros altos e de reservas líquidas. Quando um dos dois falha, a paridade com o dólar é testada, como aconteceu com o USDC em março de 2023.
O mecanismo em uma frase
Uma stablecoin lastreada em moeda fiduciária é uma promessa: para cada token em circulação, o emissor guarda um dólar (ou algo que vale um dólar) e devolve esse dólar a quem resgatar. Enquanto a promessa fica de pé, o token vale um dólar nas corretoras. O emissor não precisa cobrar do usuário porque o dinheiro guardado não fica parado: vai para títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo, operações compromissadas e fundos de mercado monetário, que pagam juros. Com juros americanos em torno de 4% ao ano, cada US$ 100 bilhões em circulação viram cerca de US$ 4 bilhões por ano de receita, sem pagar nada ao dono do token. O post o que são stablecoins: USDT vs USDC explica os tipos de lastro; este aqui segue o dinheiro.
Tether: o maior lucro por funcionário do mundo financeiro
A Tether, emissora do USDT, publica atestações trimestrais feitas pela BDO. Pelos dados do primeiro trimestre de 2026, divulgados em maio: lucro líquido de US$ 1,04 bilhão no trimestre; cerca de US$ 141 bilhões de exposição direta e indireta a títulos do Tesouro americano, o que a coloca entre os 20 maiores detentores do mundo; ativos totais de US$ 191,8 bilhões contra passivos de US$ 183,5 bilhões, ou seja, US$ 8,23 bilhões de reservas em excesso; e cerca de US$ 183 bilhões de USDT em circulação. As reservas incluíam ainda cerca de US$ 20 bilhões em ouro físico e US$ 7 bilhões em bitcoin.
No segundo trimestre de 2026, o lucro operacional subiu para cerca de US$ 1,5 bilhão, mas as reservas em excesso caíram pela metade, para US$ 4,11 bilhões, segundo a atestação divulgada no fim de julho. Esse "excesso" é a margem de segurança acima do que a empresa deve aos donos de USDT; quando ela encolhe, não é falta de lastro, mas é um dado para acompanhar.
Dois pontos que o investidor precisa saber. A Tether publica atestações, não auditoria completa: uma atestação confirma saldos em uma data; uma auditoria examina controles e o ano inteiro. E parte das reservas está em ativos que não são caixa nem título público (ouro, bitcoin, empréstimos garantidos), o que aumenta o rendimento e também a volatilidade do lastro.
Circle: a mesma conta, com balanço aberto
A Circle, emissora do USDC, abriu capital na bolsa de Nova York em 2025 (código CRCL) e por isso publica resultados completos. Em 2025, a receita total mais o rendimento das reservas somaram US$ 2,747 bilhões, alta de 64%; desse total, US$ 2,637 bilhões vieram do rendimento das reservas e só US$ 110 milhões de outras receitas. O USDC em circulação fechou 2025 em US$ 75,3 bilhões, 72% acima do ano anterior, e a taxa de retorno das reservas foi de 4,1% no ano, contra 5,0% em 2024.
A Circle mostra também o que a Tether não detalha: o custo de distribuição. Parte do rendimento é repassada a parceiros que distribuem o USDC, com destaque para a Coinbase. Depois desse repasse, sobraram US$ 1,083 bilhão, uma margem de 39%. O ano fechou com prejuízo contábil de US$ 70 milhões por causa de US$ 424 milhões em remuneração em ações ligada à abertura de capital, com resultado operacional positivo de cerca de US$ 157 milhões.
As reservas do USDC ficam majoritariamente no Circle Reserve Fund, um fundo de mercado monetário registrado na SEC e administrado pela BlackRock, mais depósitos em bancos de grande porte, com atestação mensal.
O que as reservas revelam sobre o risco
O modelo tem duas dependências, e as duas já falharam no passado.
Juros. A receita acompanha a taxa dos títulos americanos. A Circle viu o retorno das reservas cair de 5,0% para 4,1% em um ano. Se os juros caírem para perto de zero, como entre 2020 e 2021, o negócio encolhe e os emissores tendem a buscar rendimento em ativos mais arriscados.
Liquidez do lastro. Em março de 2023, a Circle tinha US$ 3,3 bilhões depositados no Silicon Valley Bank quando o banco quebrou. Por dois dias o USDC foi negociado abaixo de US$ 0,90, até o governo americano garantir os depósitos. O lastro existia; o acesso a ele, por um fim de semana, não. Um ano antes, em maio de 2022, a UST, stablecoin algorítmica sem lastro em dólar, perdeu a paridade de vez e apagou dezenas de bilhões.
Para quem guarda stablecoin, isso significa que "vale um dólar" é uma promessa com qualidade variável, e a qualidade está nos relatórios: proporção de títulos públicos de curto prazo, tamanho do excesso de reservas, frequência e tipo da verificação (atestação ou auditoria), e onde ficam os depósitos bancários.
O que isso muda na sua alocação
Stablecoin é dólar com risco de emissor e sem rendimento. É excelente como caixa de curto prazo, como ponte entre operações e para pagar no exterior, e é uma escolha pobre como reserva de valor de longo prazo, porque o rendimento das reservas fica com o emissor e a inflação do dólar fica com você. Quem quer dólar rendendo precisa de outro instrumento; quem quer apenas dólar estável precisa, no mínimo, diversificar entre emissores e manter a parte relevante em carteira própria, como explica custódia de criptoativos: autocustódia vs. terceirizada.
No Brasil há uma camada a mais: desde fevereiro de 2026 a Resolução BCB nº 521 trata compra, venda e transferência de stablecoin como operação de câmbio, e em maio de 2026 o Banco Central defendeu ao Congresso que stablecoins sejam tratadas como moeda privada, o que pode trazer IOF. O post enviar dinheiro para o exterior com stablecoin acompanha esse tema.
Decidir quanto do patrimônio deixar em stablecoin, em qual emissor e em qual custódia é uma decisão de alocação. A Vault Capital, consultoria de valores mobiliários autorizada pela CVM nos termos da Resolução CVM nº 19/2021, trata isso dentro do plano do cliente, com cripto e renda fixa na mesma conta. O mercado de criptoativos envolve riscos elevados, incluindo volatilidade significativa e possibilidade de perda do capital investido.
Perguntas frequentes
A Tether e a Circle cobram taxa de quem usa USDT e USDC?
Na compra e venda nas corretoras, não; a corretora cobra a sua taxa. Os emissores ganham com o rendimento das reservas e cobram taxas apenas no resgate direto com eles, que em geral exige valores altos e cadastro institucional.
Por que a stablecoin não rende juros para mim?
Porque o rendimento das reservas é a receita do emissor. Produtos que oferecem "rendimento em stablecoin" não vêm do emissor: vêm de empréstimo do seu token a terceiros ou de protocolos, com risco de contraparte que a stablecoin em si não tem.
USDT ou USDC: qual tem reserva mais segura?
A Circle publica balanço auditado e mantém as reservas em fundo registrado na SEC e bancos de grande porte; a Tether publica atestações trimestrais e tem parte das reservas em ouro, bitcoin e empréstimos, com reservas em excesso maiores. São perfis de risco diferentes, não um "melhor" absoluto. Para valores relevantes, diversificar entre os dois reduz a dependência de um único emissor.
Stablecoin pode perder a paridade?
Pode, e já aconteceu: UST em maio de 2022 (sem lastro em dólar, perda definitiva) e USDC em março de 2023 (lastro preso em banco quebrado, recuperada em dois dias). A paridade depende de reservas líquidas e de confiança no emissor.
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Se parte do seu patrimônio está em stablecoin e você quer saber quanto faz sentido manter, em qual emissor e onde guardar, o diagnóstico da Vault é sem custo e sem compromisso, pelo WhatsApp, com um consultor humano. Seus ativos ficam sempre em seu nome.
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